Vai Fazer Falta
Ultimamente ando escrevendo menos que nunca, meus compromissos outros todos só pedem presença de corpo, mais nada e que se diga o rei do Bitching About dessa vez tá cercado de gente muito querida. Um ano com isso aqui no ar e esse foi o máximo da minha vida pessoal que eu entreguei, calculado… mas na verdade sim me vem na cabeça um assunto, o de todo mundo desde domingo.
A Negra se foi. Judiaria, por mais esperado que já fosse, Mercedes Sosa vinha mal de saúde há tempos a derrubada final se deu quando começaram os inéditos problemas hepáticos. Sofria de depressão pesada e suas internações anteriores todas tiveram como origem problemas com os pulmões.
Os lugares comuns todos cabem… cantou o que viveu e viveu o que cantou, foi além de ser só uma cantora pra enquanto artista ser uma entidade honesta e brigadora pelos então afogados direitos civis, pouca gente mistura sem fazer pis e caca sua vida com sua obra. Foi presa, por horas, mas que se imagine que troço do caralho… foi presa ela junto com a platéia toda no meio de um show! Era em La Plata, 1979.
Cantou desde Alta Fidelidad, um senhor disco com músicas só do Charly Garcia no qual ela bota pra fuder num rockãozão com tudo aquilo de voz ( Cerca de la Revolucion a música ) indo até a Beth Carvalho, com quem cantou mais de uma vez. Muita gente acredita cegamente que foi uma cantora Folk e mais nada, nunca, foi uma cantora e de tudo.
Além de ter feito um discão com um dos grandes músicos populares desse lado de cá do mundo, existia entre Mercedes e Charly uma relação de amizade muito forte, maternal quase. Por mais de uma vez quando vivia duro e feito um mendigo de tão mal cuidado, quase morrendo literalmente, Mercedes pegava Charly no colo e lhe salvava o rabo.
Nunca teve uma ostensividade insuportável e babona que é típica de artistas metidos com política e geralmente são despolitizados. Imbecis que querem o Tibete livrem mas tampouco sabem o por que querem.
A Negra sabia, era defensora das liberdades plenas e sabia da grandeza que existia em pleitear isso e na verdade outra grandeza é fazer do envolvimento com a liberdade uma extensão dela.
Nasceu num 9 de julho, dia da pátria e morreu num 4 de outubro quando Violeta Parra nasceu. Essa foi uma mulher do cacete, em tempos de repressão deu a cara a tapa e metendo dedo na cara dessa gente de farda que matava sem discriminar ( aliás matar civis era o lado mais democrático dos regimes da Operação Condor na América Latina, não que fosse poupado quem estivesse por cima, mas corria os seus riscos).
Mercedes cantava feito doida, aquele vozeirão dava uma imposição imperial pra ela. Além disso e pra completar como se já não bastasse, sempre foi um papo de primeira, era interessante escutar o que tinha pra dizer sem música também.
Vai fazer falta.
1° de Abril, 1964
Atrasei um dia e nem vale dizer que é sacanagem só por que era o primeiro de abril. Sacanagem foi o que fizeram os conluíos do capital estrangeiro, de braço dado a política exterior dos EUA como uma criança pequena anda com o pai na rua. As vezes o papel se inverte, mas não é comum. Os financiadores se travestem de seguranças e garantidores do processo de dominação seja política ou economica.
Os militares viabilizavam isso pelo continente latino americano todo, seja Strossner, Banzer, Pinochet, Massera- Viola- Videla. Dessa vez, pelo menos agora é oportuno que se lembre de Golbery que nunca foi chefe mandante mas fez seu estrago.
O Gênio da Raça como na época disse o Gláuber Rocha e ganhou pecha de maldito pela enésima vez na vida e dessa muita injustamente. Pra ganhar dignidade pública, pra recuperar moral público só depois daquilo que todo homem com a vida pública relevante termina fazendo. Morreu, as pessoas amam um corpo morto, o morto é um bicho muito do sábio.
A única grade herança da primeira e única matriz política brasileira, o Trabalhismo, com formação de bases eleitorais, porém não quadros, a inexistência dentro da Sociedade Civil Brasileira organismos que dessem respaldo a uma continuidade do regime democrático se fez ser vista.
Chegando na época em que foi presidente, Jango. Houve a construção de Brasília, cara, talvez até demais. Também não é menos verdade que a economia, pós Legalidade, em 61 ia mal. Mas se prometia uma cura com as reformas de base postas em ação. Era viável, plenamente.
Isso é muito bom de se notar, eleitores em base eleitoral sim, ptbistas de origem, mas não gente que vinha de organizações da sociedade civil, mas não sindicatos, o eleitor-civil se esgota em si, o problema todo fica sendo é quando as idéias mudam com o contexto e aí são sobrepostas, surgem novas formas de pensar, ou estas mesmo ainda se desgastaram esse é o lugar onde o partido deveria ter força, a forças que aglutinou nas mais distintas cearas da sociedade. Uma força política simplesmente as vezes não tem capacidade de penetreção em algum lugar, se for por si só.
Durante muito o finado PTB ( nada que vez com esse do Roberto Jefferson ) pode sim pegar seus panos podres e apontar o dedo pra 64, mas quem era o herdeiro político do Getúlio no nordeste? No norte?.
No Rio Grande do Sul existem famílias que dizem ” Eu votei no Getúlio eu no Jango e eu no Brizola “. Particularmente já ouvi e muito isso, me parece interessante. Mas a urna discorda, pra ela é muito pouco. O fenômeno do trabalhismo que construíu o país deixou tudo prontinho, assim como não deixou herdeiros relevantes.
No que diz respeito a ao fato que deu notoriedade mítica pro Brizola de quando aconteceu até a eternidade, A Cadeia da Legalidade. Reação armada a uma circunstância, “ Vão Nos Jogar Bomba “. O pensamento tem que ser posto na sua circunstancia, o mundo vinha da Argélia sobrevivendo a França, o Vietnam sobrevivendo a esta mesma França e depois os Estados Unidos. A Baía dos Porcos, a resistência no Equador em 54, ainda mais o Bogotazo no final dos anos 40.
1955 Pedro Eugenio Aramburu manda matar um número incontável de pessoas, no Massacre da Praça De Maio. No Rio Grande do Sul debaixo da liderança de Lionel Brizola se aguentou um golpe no qual o presidente, Jânio Quadros, que já tinha renunciado, tinha tudo armado, Jango na China não chegava no Rio a tempo, além do mais no Rio todos os aeroportos tinham pilhas de milicos esperando pra prender ele.
Pois veio e veio pelo Sul, primeiro no Uruguay depois Porto Alegre até que o Presidente João Goulart volta da China, e a solução pro impasse político criado. Jango tinha garantida a presidência, mas como? A direita propunha, PDS mais PTB = República Parlamentarista, Jango segue presidente e Tancredo de Primeiro Ministro. Proposta aceita, mas teve uma resistência.
Era sabido e ressabido que mantendo a volta do presidente que setores conservadores e que não aguentavam mais o tal do povo se dando bem, Jango vira inimigo. Era um período no qual a ação belicosa, na sua grossa maioria das vezes, não era belicosa por si, visava atingir um propósito político, de domínio de poder.
Sabendo que era impossível perguntar 1 a 1 das mais altas patentes do exercito, quem era traíra e quem não, quem conspirou pra derrubar o presidente e quem não. Diz se que Brizolaa queria eliminar, com perda da patente, todos envolvidos na conspiração. Pro Jango pareceu exagerado e nunca se pode esquecer, era um conciliador. Brizola não, queria até em momento de maior exaltação a execução dos traidores, pena capital, via em 61 o governador gaúcho a única chance de se impedir qualquer golpe posterior, ele tava coberto de razão. Mas o presidente era o Jango, não ele.
Do 1º de Abril de 1964 em diante, apagam a luz. Golpe e suas consequências mais latentes: AI-5, Médici, Rede Globo crescendo com aporte financeiro da Time Warner, falta de sofisticação e apoio popular pra ir pro conflito direto, armado contra o exército daqui. De 64 em diante são gestadas muitas piores chagas da história recente brasileira.
Um sistema economico que cresceu só pra a torcida ver, o Milagre Brasileiro, pra falar a grosso modo pegava alguém com hipotermia e atirava em fogo ardendo. A educação, legado trabalhista, começa a ser sucateada. Grandes obras inúteis, como campos de futebol, os Elefantes Brancos até além do Raio Que O Parta, estradas que eram grandes, feias e mal acabadas ( como a filha do…. ). No governo Médici, o Brasil se agarra de vez na mão da miséria, descuido com tudo aquilo que deve ter de básico cuidar de gente, é pra isso que se vai gerir um estado, certo? De um Estado e o pior, aqui que a violência de Estado sem sentido, criminosa, cuja primeira lição que deixa a um policial, findo regime é: ” Puta merda, acabou bater em comuna, viado e negrão e sair livre? Posso facilitar pro dono dessa boca trabalhar e fazer em um dia o que faço num mês “.
Mas seria de uma estupidez do tamanho do mundo achar que simplesmente por ser militar alguém não vá prestar. Saindo Médici e a muito contragosto da Junta Militar, vindo Ernesto Geisel, ao contrário do Pinochet, dos 3 patetas na Argentina ( Viola, Videla, Massera ) era nacionalista, pra economia também. Fernando Henrique Cardoso, analisando unicamente o aspecto economico do seu governo, foi bastante mais desumano que Geisel.
Sejamos justos, ele não é menos assassino nem menos desprezível que os outros. O fato de não ficar pensando em matança 24 horas por dia, não abona ele. Na política externa, existem feitos interessantes de Geisel, que já percebia como era impossível sustentar o Regime.
Entre os feitos estão, o reconhecimento de Angola como um país, abrir relações diplomáticas com a China e revogou o AI-5, essa última obvio implicando no tema da Anistia, que eu acho, vou encher tela demais falando nos dois.
A figura do sucessor do Geisel, Figueiredo ( era torcedor do San Lorenzo de Almagro ) é a perfeita imagem de uma instituição que tá doida pra ir embora. Um sujeito que diz que prefere sentir cheiro de merda no lugar de sentir cheiro do povo, deixa bem clara a escolha de um grosso contingente de militares é justamente pra que passem a voltar a lidar com temas militares, não de todo Estado.
Mas quando digo isso, digo por que se desgastaram, se não houvesse desgaste, e tudo como no auge do Milagre, fato que faz muita gente justificar um suposto gosto pela ditadura. ” Minha carteira tinha mais dinheiro, comprei um carro, isso é o mundo perfeito. ” Não houvesse desgaste, político de grana mesmo, o negócio agora os Contras, o Irã e fechar o caixão da União Soviética, vindo de todas as partes a operação condor começava a cair e não era nem de perto uma das grandes prioridades do Governo Reagan.
A volta pra democracia, ao cabo se dá mediante circunstancias conciliadoras, e com concessões feitas por parte de torturadores e torturados, como é de hábito histórico brasileiro. As costuras e acordos feitas de 83 a 85 no qual Tancredo desmonta a Arena e deixa Paulo Maluf e Mario Andreazza lá sozinhos, mais Maluf que em 83 se candidata prefeito de Santos e faz 1% mísero dos votos.
Tancredo, com mais protagonismo sobre seus pares, faz os bichos mais espertos lá de dentro saírem correndo. Sarney, Marco Maciel, ACM, foram os primeiros de acordo com seus desacordos a vazarem, Sarney indo pro PMDB, Maciel esperando o PSDB nascer e ACM junto com Bornahausen lembrando assim, dois nomes fizeram o PFL, atual DEM.
A Anistia foi ampla geral e irrestrita, ela não diferencia torturador de torturado. A reconstrução democrática do país, terminou ( literalmente ) com Mário Andreazza, que foi o candidato contra Tancredo na eleição colegial e colocou um eterno lacaio da ditadura, José Sarney como vice. Vice que nunca foi, o primeiro mandante do executivo democrata é um sujeito que não está conforme com ele. Mas honestamente, esse tio, como tantos outros tão cagando pilha pro regime, dá um caneta e dá uma poltrona e tudo que se assina ali se transforma em poder, assim tu tem um Marimbondo de Fogo feliz pra sempre.
Ah, o Golbery era o Gênio da Raça mesmo. Mas não era nem mãe nem puta, ele não pariu isso tudo sozinho

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