Hedda Gabler
Ia eu lendo A Megera Domada, com uma tradução do Millôr Fernandes que é horrenda por sinal, parece Shakespeare no Leblon ou no Méier, mas engolindo. Engolindo por que era Shakespeare, se tu não gosta dele o problema não é com a tua compreensão do texto, não existe pessoa que vive, viveu ou vai viver que não goste de Shakespeare. As vezes acontece do Shakespeare não gostar do pobre infeliz dono desse enojo.
Mas na Megera, se nota o que eu achava ser a mulher mais fora de controle e capaz de toda sorte de barbaridade, Catarina. Catarina era insuportável até a página nove, eu não vou cagar o livro e contar quando ela para quieta. Só acabando essa divagação, ela não tinha só um temperamento forte, também era mimada e assim que tomou um tranco, parou quieta. Achei que nunca mais ia achar uma mulher, protagonista tão insuportável na literatura, mesmo levando em conta existem pilhas de exemplos por aí que nem em sonho eu vou conhecer. Se poderia pensar na velhota alemã de Crime e Castigo, mas ela dura muito pouco tempo viva, complicado de saber muito dela.
Até que me cai no colo uma peça que eu comprei pelo nome, vi que era do Ibsen depois, se chama Hedda Gabler. Gostei do jeito que o nome soava e por três reais de páginas amareladas e um nome legal, tava valendo. Esse tipo de compra costuma dar em bomba, a compra pela compra costuma ser resultar numa grandíssima bosta.
Mas indo pra peça, ler Hedda Gabler me fez outra vez entrar em contato com uma coisa que eu gosto bastante. Humanizar as pessoas que pela quantidade de barbaridades feitas, são considerados simplesmente demônios e ponto final. Hitler matou 6 milhões e tocou o horror por que tinha a piroca deformada, entende essa linha besta de raciocínio?
A ruindade de Gabler guarda uma peculiaridade muito bem colocada por Ibsen, é uma ruindade honesta. Cada ato de sordidez é totalmente sem segredos, queria casar com Jorgen Tesman a quem desprezava. Mas casa com ele por que apontou a ele como um objeto, aberta e racional, nunca foi uma neurótica tarada cujas as ações não são explicadas na obra ( o que sempre quando acontece, falta de nexo na ação dos personagens, se demonstra uma desonestidade intelectual ou filha da putice mesmo por parte do autor ). Casa com Tesman para provar a si mesmo como poderia ter a quem quisesse como posse.
Encontra em Ejler Lovborg seu rival. Lovborg era um escritor como seu marido, que sempre foi um sucesso comercial nas vendas. Sabia do talento de Lovborg e seus problemas com o alcool, quando Lovborg demonstra sinais de recuperação e suas vendas superam as de Tesman. Gabler, inteirada da situação que proporciona ao casal uma diminuída em seu padrão de gastos, consegue afundar Lovborg. O induz não só de volta as garrafas como o induz Lovborg a se matar, dando a ele uma arma, que era de seu pai o General Gabler, já falecido.
Ainda, Hedda consegue o manuscrito do que seria a grande obra de Lovborg e antes do suicídio queima os papéis na frente dele. Só aceita viver guiada por situações nas quais somente ela pode ter completo domínio. Em sua cabeça, a morte de Lovborg se dá em um bordel, ao qual ele é levado por ela e lá, atordoado pelo manuscrito queimado o suicídio aconteceu.
Quando a morte de Lovborg vem a tona, um amigo do marido de Hedda, um juiz chamado Brack tem outra versão. Que a morte foi horrenda, mas um acidente, fato que desespera Gabler. A morte de Lovborg só faria sentido se fosse como ela pensou, em um bordel para que o corpo fosse encotrado lá, mas não em meio ao movimento do lugar, tendo assim uma morte bochornosa.
Essa revelação faz Brack manipular Gabler a ponto de manterem relações sexuais por um curtíssimo período de tempo. Já que quando a segunda revelação sobre a morte de Lovborg surge.
Brack sabia de quem era a arma, sabia que era do pai de Hedda. O desespero em Gabler, que comete suicídio, acontece não por medo de alguma represália de qualquer sorte. Seja da justiça, de rejeição social, qualquer tipo de reprovação que poderia receber, o desespero aqui acontece pelo fato de que pela primeira vez, Gabler se sente sem poder. O poder para ela sempre foi a única maneira que demonstrou para sentir liberdade, e isso se sente no cheiro do texto.
Hedda Gabler se sentia livre praticando sob qualquer hipótese a opressão. Se afirmava e somente assim conseguia se afirmar negando e punindo o alheio. Sempre que se viu em situações na qual o domínio sobre o outro não era presente, se demonstrava frágil, como no segundo ato, diz: ” Sou uma covarde… “.
E pela milésima vez, eu não sei acabar textos, that´s all folks!

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