Bonito, sabido e joiado ( original 27/07/08 )
Tava me lembrando de um texto que tinha lido faz uns 3 anos, era do Paulo Francis, ele citava o Millôr no texto como alguém que já tinha falado no assunto antes.
O assunto era sobre as três aristocracias que abençoavam e amaldiçoavam a vida daquele que fosse parte de qualquer uma delas.
São elas a beleza, o dinheiro e a cultura. Concordo na íntegra, explico.
A beleza deve criar no belo um conflitaço, uma dúvida sobre ser gostado e buscado só pelo fato de ser bonito. O sujeito dotado de grossa beleza ( não tô falando dos bonitinhos, tô sendo Bündecheniano no meu exemplo ) vive também a maldição de viver pra provar até quando a beleza durar que não é ” só bonito “, a beleza. O sofrimento do belo daquele que sabe só ser aceito como belo, por mais que seja inteligentíssimo, interessantíssimo, sempre vai ser só o retrato da própria ( bela ) cara. O fantasma da velhice deve seguramente ser um tormentaço pra quem é uma bofetada na cara da feiúra, a beleza vai e o sentimento do ” eu vou junto ” vem junto. A beleza, constante afago na auto estima, dá a sensação de ser aceito, mas se por um lado puxa sempre gente pra perto ( raramente sai causando relacionamentos de profunda afetividade ) cria então o que disse, Rita Hayworth em uma frase que mais um cem aninhos vira história concreta, vira uma estátua de bronze….. ” Dormem com Gilda mas acordam comigo “.
No que diz respeito aquele com dinheiro o grande conflito me parece ser a constante dúvida se gostam dele ou do dinheiro que tem. Qualquer coisa ou feito obtido por um sujeito com dinheiro sempre vai contar com algum pentelho de cotovelo dolorido pra dizer que o sucesso do endinheirado se deve única e exclusivamente a sua fortuna e nunca a um mérito pessoal que tenha. Injustiça, enorme, mas as coisas não funcionam nesse sistema do Justo/Injusto.
Por último vem o que mais sofre, cultura pressupõe poder, é o bem simbólico mais poderoso. E é o mais poderoso por que permite deixar quem o tem sempre mais e mais vasto. A busca pela cultura antes, melhor, como fazer pra conseguir acesso a ela, pressupõe inteligência, o que faz desse dom duplamente amaldiçoado.
O sujeito culto, informado é aquele que impõe uma incoveniência aonde quer que vá e se manifeste. Sempre vai exsitir os outros que ao olharem pra ele com o ar de espanto dirão ” como é que ele sabe isso? “. O sujeito com nível cultural-intelectual maior que o da média tem sim, até por que é alguém com uma capacidade de analisar contextos de toda sorte como poucos, um ar arrogante, distante. Hoje em dia em um mundo em que cagar ( sem saber que se esta cagando ) na cabeça da cultura e dizer que por exemplo ouvir música e ler um livro é ” coisa de intelectual ” num tom ultra jocoso, como se fossem dois exercícios de pura perda de tempo e que ” não levam a nada, nem dão dinheiro “ dão a palavra intelectual e intelecto uma citação com muito mas muito rancor. Fazer 900 abdominais e com 20 anos se portar como um fedelho de 15 é que é legal.
Não é menos mentira que com uma geração de pessoas abaixo da média, quando um se destaca nesse ponto específico, da cultura do conhecimento da capacidade de elaborar pensamentos complexos, causa a sensação de ” como ele sabe isso? Como ele FEZ pra saber disso? Como ele sabe disso e eu não? ” se cria aqui por parte de quem é da média, uma sensação de diminuição muito grande, faz com que o coitado se sinta burro, atingido na boca do estômago de própria moral, deve ser desconfortável, bastante. O interlocutor ganha ares de presunçoso e insuportável, coisa que a superioridade intelectual de fato é. Se por um lado quem busca e tem cultura é isolado do convívio dos grupos mais tradicionais, pelos motivos já explicados. Entre tantas conclusões que se pode chegar daqui, uma delas é, se existe Dom dentro deste mesmo existe um látigo, um é o lado b da moeda do outro.